bio-lógica
como você se relaciona com aquilo que sente?
a pressa em resolver o que você sente
te pressiona a buscar pílulas
para resolver suas feridas
você deseja a conclusão
e tenta a qualquer custo remover
purificar com banhos de ervas para voltar a ser pura
a pressão por concluir o inconclusivo
o desejo em endereçar algo a um final
faz com que você floreie o entorno
perfume com alfazema a putrefação da ferida
que continua a pulsar
adiando então o contato com a realidade que existe em ti
os tempos que estamos vivendo, moldam uma criação contínua de sujeitos que se enquadram num modo particular de ser, uma monocultura sensorial. tratamos nossas vidas como um projeto, tentando nos tornar admiráveis, úteis, sempre de bem com vida. buscamos alívio para a dor que estamos sentindo e buscamos soluções imediatas para nossas aflições. tentamos nos encaixotar em uma certa vibe, uma aura coletiva de um mundo que é bonitinho e feliz. polarizadas pela caos que ronda as ruínas destes tempos, tornamos nossos corpos incoerentes e emaranhados em teias paralisantes.
não conseguimos nos sentir inteiras com aquilo que existe em nós.
a maioria das pessoas está acostumada a se orientar em busca de alívio. algo surge e o próximo passo é encontrar uma resposta mentalmente, suavizar, afastar ou acalmar em uma versão familiar. através da arquitetura produtiva da cultura voltada para a apreciação externa, tratamos nossos sentires como um produto de resposta final e assim arriscamos continuar os padrões muito parecidos com os que criaram a situação inicial.
o que observo na minha experiência com os atendimentos de bio-somática é que a regulação não funciona se a intenção for se livrar da resposta que você está tendo. quando confundimos a regulação com o desejo pela calma, estamos dizendo ao nosso corpo “não está tudo bem sentir isso”. tentar acalmar faz com que não possamos desenvolver a capacidade de lidar com a ativação que estamos vivendo. se corremos para mudar, isso se torna uma forma de consertar e não de apoiar ao movimento que quer acontecer dentro.
na minha perspectiva, fisiologicamente é impossível libertar o corpo das impressões que um trauma causou, não há como voltar a ser pura. nós sentimos ele, criamos capacidade para estar com ele, integramos ele. a sabedoria da natureza que existe em nós, que nos permite nos adaptar para sobreviver, não é algo que se possa desintoxicar. quanto mais tentamos purificar, mais ela tentará nos proteger.
“As formas orgânicas são ao mesmo tempo perfeitas e caóticas; caóticas porque não há uma ordem pré-determinada nem um padrão de conduta: não se fabricam com moldes fixos e nem modelos; e são perfeitas porque realizam perfeitamente os processos vitais que as sustentam.”
- Casilda Rodrigáñez
um corpo só terá coerência se ele aprender a dialogar com as forças de adaptação criadas pela sua própria natureza para sobreviver (bio-lógica).
então, em vez de apenas regular ou tentar mudar seu estado imediatamente:
como me relaciono com o que estou sentindo?
como posso observar a resposta inata do meu corpo em ativ-ação?
como abro os fluxos somáticos para sentir o que me atravessa?
amar verdadeiramente a natureza não significa só abraçar uma árvore, tomar um banho de mar, reciclar o seu lixo, significa também amar o fato de que a dor que você sente é uma resposta inteligente e assertiva para o impacto e afeto daquilo que você viveu e vive. é necessário amar o fato de que natureza se autocorrige em tempos de crise e que o que podemos estar vivenciando como desequilibrado é, na verdade, a própria natureza se equilibrando continuamente. isso só nos deixa desconfortáveis porque, está fora do nosso desejo de previsibilidade linear. está fora do nosso controle.
mais do que esquecer você precisa relembrar:
seu corpo está envolvido em ritmos ancestrais
um feitiço cultivado por bilhões de anos de magia fractal
sua dor não é um problema a ser resolvido
ela mostra uma direção
é uma linguagem a ser remembrada
amor à vida na terra
Véro Monteiro
a energia vital flui em relação ꩜
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